Férias do Malassombro - Especial Xmas Edition: O passado negro do Papai Noel

Depois dessa, o seu natal nunca mais será o mesmo.

Dom dia, leitores!! Pois é, tem certo tempo já que eu não faço uma edição das "Férias do Malassombro". Bom, em parte, isso é porque não tem tido muito tempo pra férias. Mas, aproveitando que estou atravessando esse período natalino e de folga, aproveitei pra trazer uma edição especial das Férias do Malassombro! Ui!

Papai Noel, ou Santa Claus, nada mais é do que o símbolo máximo do natal no ocidente. Em alguns lares ele chega a ser mais famoso que o próprio Jesus Cristo, o suposto aniversariante da data. Porém, todos temos um passado, e com o Papai Noel não é diferente. Pegue sua  taça de espumante e vamos conversar sobre as várias faces de uma tradição de natal.

UMA TRADIÇÃO POUCO CRISTÃ

Vamos colocar as coisas em pratos limpos. Se há uma coisa que o natal não é, é uma tradição cristã. Fica claro isso, porque a Bíblia, o maior livro cristão, não menciona a tradição natalina. Pior, em momento algum afirma que o Rei dos Reis nasceu em dezembro. Isso é pura invencionisse, simplesmente porque se ele nascesse numa manjedoura, naquele tempo, naquele lugar, mais provável era que não estivessem em um estábulo por causa do rígido inverno que cai naquela região todos os anos em dezembro. O natal, segundo o documentário Discovery marca outra coisa muito importante também no mundo antigo: o Solstício de Inverno.

O Solstício de inverno era muito importante porque representava o auge do sol no céu ao longo do ano, o dia mais curto e a noite  mais longa, o que determinava sinal de novo tempo, novo começo e, principalmente, a promessa de que haveria fartura novamente. O Solstício de Inverno era comemorado de maneira diferente em cada nação. Entre os gregos era a comemoração a Dioniso (ou Baco, para os romanos), deus do vinho, das festas e pai de outro feriado também A-DO-RA-DO pelos brasileiros: o carnaval. Baco era o melhor deus do panteão grego.

Baco, deus do vinho e das festividades, o símbolo natalino dos gregos e romanos.
Entre os egípcios, no entanto, o período era dedicado a Osiris, o deus da vegetação (e, portanto, da agricultura) e cultuado como o juiz dos homens no momento do seu ingresso do pós-vida. Sua complexa biografia permitiu que o mesmo fosse condecorado o mais popular dos deuses egípcios. Como consequência, também o que reuniu mais templos em sua honra.

Osiris, o deus natalino dos egípcios, e também o mais popular do seu panteão.
Na China, a data representava um símbolo excepcionalmente importante, porque representou a dualidade entre o bem e o mal, ao passo em que na Grã-Bretanha, os Bretãos celebravam o mesmo solstício dentro do famoso Stonehenge, ainda mais antigo que a celebração que o cercava e, de todo modo, tão enigmático quanto.

Mas, para descortinar as origens do nosso natal, importa voltar os olhos aos romanos, povos conquistadores e empreendedores que, como poucos, souberam sintetizar a ideia de sincretismo religioso em todas as suas conquistas. Quando conquistavam, os romanos tanto influenciavam quanto eram influenciados. O deus ocupante da data 25/12 em Roma era Mitra, deus da luz, que foi adotado pelos soldados romanos nas missões ao Oriente Médio. Com Alexandre o Grande (Alexandre da Macedônia), as coisas mudam um pouco. Acontece que em Roma, aos poucos, o culto a Baco (grego), aos poucos perdeu espaço para o culto a Saturno, deus do tempo romano. Este deus antropofágico era, a exemplo de Osiris, também o responsável pela agricultura, no panteão romano. Naquela época, Alexandre institui, no 25 de dezembro a festa do Sol Invicto, dedicada a este deus antiquíssimo, isso lá pelo século 4 a.C, isto é, bem antes de Cristo.

Sabe como os romanos comemoravam a festa do Sol Invicto? Reuniam-se com seus vizinhos e familiares, faziam comidas, separavam bebidas e trocavam presentes entre si. Isso te lembra alguma coisa? Pois bem. Mitra é o pai dessas trocas de presente de natal.

Se você ganhou o que queria, agradeça a Mitra!
Mitra continuou, no entanto, ainda muito popular e foi crucial para que as intenções políticas por trás do natal permanecessem continuadamente revividas, há quem afirme, até os dias atuais. Pra entender melhor esse link, vale a pena conferir o vídeo abaixo da série "Plano Mestre" do blog Knowledge Is Power sobre a religião cristã atual. Coisa de profissional, só vendo pra conferir.


Mas... sendo uma festa pagã, como se deu essa migração para a cultura cristã? E o que isso tem a ver com o Papai Noel? Bom, fácil. Os romanos viviam no período da ascensão do cristianismo. Depois do seu reconhecimento, era do interesse da religião que a mesma fosse incorporada aos demais povos, custasse o que custasse. Pois bem, analisando essa perspectiva, entretanto, percebe-se que houve muita corrupção, especialmente no que tange à comemoração de datas importantes para a Igreja antiga. Boa parte dos feriados dos antigos cristãos fazem referências às mortes dos mártires, especialmente de Jesus Cristo, nem mesmo se menciona a suposta data do nascimento do Cordeiro de Deus. Perceba que, como afirmam Thiago Minami e Alexandre Versignassi (para Superrinteressante, edição 233), foi tudo um jogo político.


Os cristãos mais novos, aos poucos, foram incorporando tradições das festas de Mitra e na Idade Média, adotaram as características das festividades do deus nórdico Yule: o presunto, a ceia natalina, cores pela casa e uma decoração característica eram, na verdade, homenagens a este deus ou deusa, já que as suas representações são muito variadas.

Deus Yule. Parece com algum conhecido?
Pois é. De cristão, pouco a festa possui. Na verdade, é uma mistura que envolve muito sincretismo religioso com fins políticos. Isto agradava aos cristãos (que tinham uma data para marcar o início da sua religião oficial), ao mesmo tempo em que agradou em muito os povos conquistados, porque eles poderiam misturar seus festejos com o natal. Segundo o nosso mais querido conspirólogo, Danizudo, a missa cristã é a prova de que tais sincretismos funcionaram, ampliaram-se e culminaram na atual celebração contemporânea do natal. Vale a pena consultar o Knowledge is Power, blog do Danizudo e ver que tem muito mais coisa que realmente sabemos nessa história.

SURGE O PAPAI NOEL

A tradição cristã nos leva à antiga Turquia, na cidade de Myra. Lá, no século 4 d.C, as moças que desejavam casar tinham que ofertar um dote, que geralmente era dado em ouro ou em bens. Mas, para o azar de quatro anônimas, elas não tinham um pau pra dar num gato, como se fala aqui no meu nordeste. Resultado: iam se tornar prostitutas, fazer a vida. Mas, como todo milagre de natal, dias antes da data de 25/12, uma certa quantidade de ouro, em um saquinho, caiu da janela (ou, para os mais exaltados, da chaminé), e no dia seguinte, um novo saquinho, e outro, e mais outro. Pronto: estavam salvas as moças e o natal de todo mundo acabou bem. Quem fez a boa ação? Segundo os estudiosos da tradição foi Nicolau de Mytra, ou Bispo Nicolau de Mytra, em fim, muitos nomes, mas nos chegou aos tempos modernos o nome de São Nicolau. Só. Sem adjetivo pátrio nem distintivo de cargos.

São Nicolau: primeiro Papai Noel.
Nicolau tornou-se um santo popular, e, mais que isso, tornou-se um santo para exportação. Na Rússia ele virou o principal santo da liturgia católica local, na Europa, ficou conhecido apenas como o Bispo de Myra, já na Grã Bretanha, seu nome mais popular foi mesmo o Father Christmas (Pai-Natal), e na Holanda o suntuoso SinterKlaas, que evoluiu nos Países Baixos para o Santa Claus, que, mais tarde os EUA adotariam como símbolo das suas festividades natalinas. O Papai Noel estava criado, mas, curiosamente, sua imagem tal como a vemos contemporaneamente, nem de longe se parece com o aspecto que tinha antigamente, porque, principalmente em decorrência dos inúmeros lugares por onde a tradição do natal passou e, por conseguinte, pelas constantes mudanças na tradição, aos poucos o papai noel começou a fazer parte de uma elaborada rede de tradições e sincretismos, que permitiram com que sua famosa e bonachona imagem atual somente se tornasse possível graças a uma jogada de Marketing, que serviu também pra limpar a ficha do "bom" velhinho.

O B-SIDE DO PAPAI NOEL

Krampus: o Papai Noel às avessas.

Falar das qualidades do Papai Noel é fácil. Mas... E os seus defeitos? Pois é. Tem gente por aí que afirma que o Santa Claus na verdade possui segundas intenções com a oferta de presentes, que tudo o que se relaciona a ele é, na verdade, um embuste com um fim prático: arregimentar almas para satanás.

Santa Claus, o Papai-Noel, antes de ser associado à imagem de São Nicolau, o bondoso, fora associada à outra figura também de origem pagã: o Velho Inverno. A figura do Velho Inverno andava, nos fins de novembro na região hoje conhecida como Grã-Bretanha batendo às portas e pedindo aos moradores abrigo e comida. Quem lhe desse o que era solicitado e o alimentasse com fartura era recompensado imensamente com um inverno menos rígido e com mais víveres para atravessar a perigosa estação fria. O mesmo não acontecia com quem lhe era indiferente ou ainda quem não lhe desse alimentos. As semelhanças com o atual Papai Noel são muito grandes, porque os dois são retratados como um velho de barbas longas, que levava consigo um surrão, ou um saco enorme de tecido ou couro, no qual levava seus bens e presentes aos que lhe era conveniente agraciar.

A imagem do Papai Noel moderno nada tem de comum com as imagens que foram feitas dele no passado. Além da enorme semelhança com o deus Yule (velho de barbas brancas), somente no final do século XIX houve esforços de representar o Papai Noel de maneira próxima à realidade. O esforço mais notável foi o do alemão Thomas Nast.

Thomas Nast, o criado da imagem do Papai Noel moderno.

Nast fora contratado para, no fim do século XIX para compor à imprensa uma imagem do Papai Noel. Com base nas descrições da cultura popular, o ilustrador desenvolveu os primeiros protótipos da personagem, entretanto, com feições ainda muito próximas dos duendes celtas, uma ironia, já que é daquela região que a imagem do Velho Inverno vem. A imagem recebeu melhorias, e as formas rechonchudas e o gorro vermelho foram anexados em seguida, formando a imagem que se depara continuadamente sobre o Papai Noel.


Protótipos do Papai Noel de Nast. Muito poucas semelhanças com os modelos atuais.
Entretanto, entre a imagem apresentada por Nast e o modelo contemporâneo de Papai Noel, ainda houve algumas modificações. Isso aconteceu no ano de 1932, quando, inspirada no protótipo de Nast, a Coca-Cola (isso, a empresa que produzia o refrigerante :/) divulgou em sua campanha de marketing para aquele ano, a imagem de um Papai Noel gordo, vestido de vermelho, com roupas suntuosas e de quem vem de regiões muito frias, que convidava os consumidores a provar a deliciosa bebida. Pronto, estava criado o Papai Noel tal como o conhecemos. É aqui que viramos a página e nos decepcionamos com ele.

UMA DEUSA, UMA LOUCA UMA FEITICEIRA? NÃO, UM NOEL-DEMÔNIO

Nem todo papai é Noel.
As tradições de natal contam que Noel dá presente para as criancinhas boas, as más não levam nada. Pois é. O problema é que o mal não fica impune. A lenda natalina alemã presenteou a tradição mundial com a imagem do Krampus, isto é, um Papai Noel do mal. Enquanto Papai Noel dá presente para as crianças boas, Krampus sequestra e castiga as crianças que não se comportam bem no decorrer do ano.

O nome Krampus vem do alemão Krampen, e siginfica "garra", literalmente. O Krampus vem na forma de um velho tenebroso, retratado também com chifres e com calda. O que se sabe ao certo é que ele procura as crianças mal comportadas e as leva embora. Engraçado que o Brasil também recebeu o Krampus. No Rio Grande do Sul, até a década de 1950, os jovens temiam o Pensinique, nome que é a corruptela de Pelznickel, como era chamado o Krampus no sul da Alemanha. O Pensinique brasileiro não aparecia só no natal, não. Caso o pai ou a mãe quisesse castigar a criança mal comportada, em qualquer época do ano, ele poderia ir à mata mais próxima e "contar" à criatura, os maus feitos da criança.A Baviera também tem seu Krampus: o "Wilde Man" era a entidade responsável pela punição às crianças más. A diferença é que o Wilde Man não possui chifres.

Detalhe, em alguns países, como na Bavária, até hoje se cultua o Krampus. Confere no vídeo abaixo (em inglês):


Certas lendas, que a internet não me permitiu exatamente encontrar as fontes, por sua vez, vão além. Segundo elas, o Papai Noel, na atual conjuntura, é um assistente de satã. O que, se levar em consideração que o natal é mais anticristão do que cristão, é de se considerar. A missão dele e do seu séquito de demônios assistentes seria, na verdade, colher mais e mais almas para o reino das trevas. Como? Simples. Oferecendo ajuda.

Conta a internet que o Papai Noel de hoje é, na verdade, uma caricatura de um outro ser inominado, que andava nos invernos no mundo, oferecendo ajuda, sonhos, ambições às pessoas. Em troca, essa criatura não queria muita coisa. Na verdade, ela queria apenas uma. A coisa pega quando não se sabe o que essa coisa exatamente é, e quando se pergunta, a resposta que se tem é que é um presente pra um amigo que vai ajudar, mas que você não sabe quem é, tá ligado? Acontece que em um natal qualquer, o pacto que foi assinado sem a pessoa saber, expira, e o Papai Noel vem buscar a tal coisa. E adivinha o que é? Se você pensou que era  alma, acertou em cheio. Estas tais fontes dizem que é dessa cruel tradição, a de aceitar um presente que não se sabe de onde veio, é que vem a coisa do amigo secreto, ou amigo oculto, que é tão popularmente festejado no Brasil e no Mundo.

Papai Noel seria, pois, um mero atravessador que, junto com Krampus, seu mais fiel assistente (sim, os duendes que constroem os brinquedos são seus asssistentes, também) conseguem muitas e muitas almas pelo mundo afora.

CONCLUSÃO

Claro que nem tudo que está aqui corresponde à realidade. Mas, claro, há muito o que se considerar. Por exemplo, a Bíblia não menciona a data do nascimento de Cristo. Nem tampouco faz boa referência a aniversários, já que os poucos que são mencionados nas Escrituras não termina bem para os cristãos. Depois, muita gente esquece o real significado do natal, se e que há algum. As tradições cristãs estão todas lá na Bíblia, quando modismos e consumismo passa a tomar o lugar delas, é porque não há esforço suficiente no sentido de proporcionar conhecimentos sobre as mesmas. É preciso, portanto, mediar direito quais as prioridades. O natal não é, ao meu ver, uma data muito positiva dentro da perspectiva religiosa, porque o tempo de presentear é qualquer época do ano, de coração, e não esperando um comportamento em troca. É preciso mudar e rever as perspectivas para que, dessa forma, se possa ter novas formas de viver a espiritualidade em qualquer época do ano.

PARA SABER MAIS

Para saber mais sobre o Krampus, clique aqui.
Saiba mais sobre a vida de Thomas Nast clicando aqui.
Conheça outras informações e datas sobre o Papai Noel aqui.
Veja mais detalhes sobre o lado mau do bom velhinho clicando aqui.

E até o próximo post!

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