Toda Poesia


TEMPO

Quantas pessoas não amaram essas ruas,
seus ídolos e seus adobes?
Quantas não pisaram suas pedras, 
não choraram suas esquinas
hoje sem tempo?
Todas se foram,
todas se vão.
Amém.


FUTURO

Não perdemos nada.
Cada tropeço, 
cada pedra,
cada ferida será recompensada


SETEMBRO 

Lento, recolho lembranças
na pele escritas, cansadas lembranças.
Colho-as num enorme cesto, e as espalho
em silêncio como folhas
no outono da minha vida.


O PIOR DIA

Quando vem o pior dia? 
Não se sabe. O pior dia não manda aviso.
As nuvens ao horizonte prenunciam tanto quanto um baralho cego,
escondem em si, toda inconstância de algo 
que nunca se diz. 
Lábios cerrados. 

E ele chega - o pior dia -
numa tarde ensolarada ele vem. Termina tudo 
e começa o novo.


AGOSTO

Vejo do meu quarto estranho  um brilho ao longe no céu
escuro de agosto. 
Quem me dera fosse só uma estrela
e não o manso afago 
de um sonho distante...


TEMPO DE CHUVA

Tempo de chuva e eu procuro uma janela aberta. 
Esqueço coisas e jeitos, 
procuro entrever felicidades
na terra escura.


TRISTE HISTÓRIA DE UM OCASO

Abrimos a gaiola e você voou. 
Nunca mais o vimos.
Sobramos eu e minha tristeza.
Sabe, eu não queria o seu dinheiro nem o seu prestígio
ou o cheiro amadeirado que saía de seus cabelos.
Não queria tua casa nem tua pena.
Tão-somente quis o que tinhas a me dizer,
fosse alegre, triste, estranho. 
Queria existir. Apenas existir pra ti.


FOGO FÁTUO

Sinto dentro de mim
ferver um vulcão
que arde em cinzas ternas 
de um sentimento que ainda não morreu.


NOVEMBRO

As árvores dessa cidade já estão
amarelecendo de puro escárnio.
Escondo meu rosto sob a palma das mãos e
cálidos desejos oculto agora.

É chegada a hora de te ver mais uma vez
amada terra que outrora deixei pra trás
mas não esqueci de conservar comigo,
ainda que o mortal desejo me consiga impelir
pra longe.. longe... longe...

As flores estão no chão já, malditas árvores
que insistem em rir de mim!  Arraste-me daqui
coração selvagem e me mostra o caminho
daquela terra d'outros tempos
em que até a fome era boa.


DISTANTE

Olhos perdidos, marejados, janela aberta.
À distância, minhas escolhas parecem tão sem sentido
e os meus medos tão bobos, infantis. 
Esqueci meio mundo de gente, mas não esqueceram de mim.

Olhos marejados, escolhas além de mim.
Outras vezes vozes me chamam àquele fogo 
que é a descoberta, que é o novo,
mas sempre tem algo que me prende aqui,

Na janela, olhos semicerrados - um perfume entra e eu sinto
presença distante queimando, lento e gostoso, 
como a brasa vermelha 
a que chamei de coração.


O TRISTE JARDIM DE OLÍVIA

Vinda de um velório, Olívia
seca e cansada, mulher de muita força,
esperava uma negativa ao chegar em casa.
Seca, porém, mulher. Cansada, mas não vencida.

A volta do velório é pior do que o velório em si.
Ex-amada, Olívia, esconde-se sob o manto negro
de esquecer a quem não se esquece, Olívia.

Não cai chuva. Não faz sol. Tudo naquele dia era luto.


BERTOLEZA

Os homens bons estão por aí,
em sua botas brilhantes e seus trejeitos delicados.
Os homens bons se escondem
por trás de boas maneiras e modos de falar
que ocultam todos os desejos que têm.

Sorte a nossa que temos o que oferecer,
e se não nos digna o amor, que o seja a necessidade,
pois o que é o amor, senão uma justa troca
de olhares, de medos, de desejos?

Os homens bons estão por aí,
e seus bigodes escondem maledicências
e suas vozes imprimem na mente memórias
ardentes e salgadas 
como a língua numa pele seca e suada.

Pouco a pouco os homens bons se esquecem 
de como nos encontraram e viram cebolas,
deixando cascas e cheiros 
sob nossas cobertas.


LUZ NEGRA

Chega silenciosa entre minhas rotas cortinas, esqueço
de onde vim, pra onde vou, apenas olho
entre a fascinação e o medo
a presença imóvel diante da minha cama.
Seus dedos - tão brancos, confundem-se com os galhos das árvores lá fora
e as coisas do meu quarto são investidas
de surpreendente vida.

Chega silencioso o sentimento e 
meus olhos não esquecem.
Prendem feito mata-borrão a impressão
daquela doce figura.

E brilham pelos negros, nas nesgas de carne sob suas vestes.
E o sonho,
e o bom
de tudo o que eu vejo, simplesmente me deixam 
imóvel na cama, no mundo. Só olhando
a figura que se apresenta pra mim.

Bate o vento e o galo acorda
- Não vá!
Penso eu, indiferente à luz que se chega 
de mansinho e persistente, desmanchando meu ninho: 
é o sol e a luz de outro dia.


SOBRE PAREDES E HOMENS

Estou atordoado olhando pra frente
e pratos e colheres fazem barulho ao meu redor.
As pessoas deglutem seu alimento pensando
nos dias que levam ao nada. 
E eu aqui, incomodado com a cor das paredes.

Me parecem cada vez mais estranhas as coisas 
que as mães dizem aos seus filhos. Tão inúteis precauções!
Porque, quanto mais sentidas, mais desobedecidas
e as mães sempre a chorar.

Mas meus medos, só a mim pertencem
e é no afastar deles que me dou conselhos mais sábios
enquanto as pessoas nesse restaurante, como quadros grotescos,
mastigam gordura e vegetais 
em sorrisos de fotografia.


DO MEU JEITO

Esmago em minha cabeça um sentimento estranho
uma vontade louca de te olhar mais uma vez
e de te imaginar sem roupa. 
Brigo em êxtase com meu pensamento, 
te imaginando a dormir, se roupa e sem vergonha
porque no sono, amor, somos realmente livres
e nos vitimamos com o nosso corpo ébrio 
em desejos afogados no inconsciente.

Ontem a noite, esmaguei a última gota dos meus medos
e sonhei com você, enquanto me oferecias veneno
e eu, em pranto de alegria, aceitava resignado.

De fato, amor, morreria por ti. Eu, ainda que estranho,
beijaria seus pés, a poeira que sai dos teus sapatos,
pois não saberia jamais amar-te pelos regulamentos recatados
de burgueses pudores. Sou completo, bem, 
ainda que isso a ti pareça insano,
a mim, o é normal.
É como ferir-se em nome desse sentimento
e ver correr, alegre e com dó,
a última gota do sangue que derramei por ti.

Então nos veremos hoje? 
Acho que não. Teus olhos vazios denunciam 
que distante estamos ainda. Espero, porém,
Paciente, ainda que triste, tua velhice,
e a prata infeliz dos teus cabelos refletindo
o sol do fim de tarde sobre nossos corpos nus e usados.


UM SOCO

De todas as coisas que me dissestes,
aquela que me fez vomitar todos os medos
e várias partes de mim junto,
me fez tremer na base
e quase surtei.

Me desculpa, amor, se misturo os meus estilos,
mas é que misturar iguais é imposível!
E falar de ti, ainda que sacro, é profano,
ainda que bonito é segredo!

Sabia que você causa muito mal quando pensa
que sua vida se resume ao seu próprio umbigo?
Sim. Levei um soco
e, admito,
ainda não me recuperei
desse seu knock-out
que não me deixou com o olho roxo
mas apagou brevemente minha memória.

Teu jeito-beijo-punho
e caninos armados em
sinal de minha própria lascivia,
dilaceraram, bem, algo dentro de mim
e nem os vocativos me confortam mais!

Te ergui dentro do meu íntimo e me derrubas
nu e com medo
dentro do mundo em que
sincero e atordoado
distribuo sangue e raiva,
quando nao lembras mais de mim.


FANTASMAS

Acordei no meio da noite e o homem do espelho estava lá.
E fora dele - o espelho - ficam
tantas coisas absurdas. 
Seus olhos nao me assustam pois não me veem,
os fantasmas como aqueles sao cegos.

Perdidos no turvo dia cheio, nós, vivos,
não vemos nem percebemos eles lá
fantasmas
vivendo à nossa sombra
gemendo pelos cantos a arrastar correntes
tão à lá Oscar Wilde.

Ontem a noite o homem do espelho estava lá
e não gemia mais que os outros fantasmas.
Ele apenas escorregava para fora da moldura,
como que perdido em encantamentos 
pelo mundo que outrora vira turvo.


EU MATEI UM HOMEM

Eu andava pela rua, 
e ele estava lá. E eu não sei porque,
mas me vieram ganas de falar-lhe
e ele era um conservador,
homem de bem, de benção-padre-que-vim-me-confessar.
E eu comecei a ensinar-lhe sobre o mundo.

Mas que besta instinto esse meu!
O homem não resistiu. 
Seu fraco coração não conhecia das coisas da vida,
e a vida, amigos, essa não dá mole!

Eu matei um homem - admito.
Se houver a intenção de julgar-me, 
peço-lhes que considerem meu crime 
em nome da humanidade.


TODA POESIA

Toca a casca
rompe o ovo - e nasce
suja, porém bela.
Semente do proibido.



PLÁCIDO

Eu quero um amor
que me tire do cabresto.
Que me ensine a matemática, 
do louco dividir-multiplicar.

Quero sentir no sangue a força de mil espelhos d'água
a derramar sobre pedras sua força
e ir moldando
e transformando, 
trocando de forma
meu corpo. 

Em êxtase espero o troco
dos meus anos de espera,
à luz da minha esperança.

Que me arraste pr'um mar esse amor
que me perca - irresponsável que sou,
que troque os meus modos e me redefina
pelo traço do seu maxilar.



TODO AMOR ERRADO 

Quando busquei encontrar a pérola 
cística esquecida na imensidão dos meus medos
quase esqueci eu
das palavras que me sussurravas ao ouvido,
lembranças de outras épocas, 
quando éramos crianças e nus
completamente nus
andávamos pelos campos a esquecer do nosso dia
nossa vida era pequena, 
esquecida. 
Outros dias chegaram, Luz,
chegaram e mostraram verdades feias, que eu esqueci de 
gravar nas matérias dos meus livros.

Peguei um ônibus, amor,
caí numa cidade grande e estranha.
Hoje vejo as novelas melancólico
entretido num mundo que não é meu.

Peguei um ônibus, amor,
e caí nessa cidade, 
maluca.
Essas pessoas me assustam, Luz.
Elas me assustam, mas eu não consigo 
ir embora dessa cidade.
Queria sua mão, seu braço
seu calor nesse escuro, amor,
e dormir uma noite sossegado.



NOITE DE HORROR À BANDA LARGA

Teu amor  me assusta.
Abro o email e espero ver tua foto - ela não está lá.
Ainda que estivesse, talvez fosse melhor não estar.
Olho-te com medo, mas meus olhos se enchem desse pavor,
e eu não resisto e olho
e olho profundo até as manchas no seu jeans,
e cada uma segreda-me uma situação

Se comes, 
se bebes,
se vais ao banheiro e seca as mãos às coxas
Tudo está lá,
inclusive os meus olhos.
Eles estão doentes de olhar.
Olho tua pele e me confundo... mas olho assim mesmo!

Teu amor me castra.
Me seguro, mas não consigo conter essa sensação.
Toco o céu, e me castras, mesmo quando estou em ti.
Meus ternos, tua pele, teu jeito.
Tudo me assuta e eu não vejo,
além do oceano distante.

Arranha-céus e estradas...
tudo à mercê de ti...
me assustas, como num filme dos anos 50
e preto-e-branco, morro em ti.



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