Congele no tempo o momento




Às vezes, quando estou só,  costumo andar pela casa, com uma câmera na mão, apenas filmando o espaço, sentindo com as pontas dos dedos as texturas das paredes, das cerâmicas, a ordem e a desordem de cada coisa dentro dos cômodos. Gosto de ver como a luz se esvai ao pouco, até que a tela de LCD se enche de granulações, escondendo a imagem e encerando o filme. Sou perdidamente apaixonado pelos finais.
Também sigo com uma câmera até um local reservado, assento-a sobre algum parapeito, pode estar ensolarado, mas adoro os dias de chuva, quando a luz de fora e a de dentro, em todos os sentidos, se harmonizam. E eu consigo me ver, fora de mim, através das lentes. Sento em frente à câmera e passo alguns minutos só olhando a lente, pensando, como num diário mental.

Para a maioria das pessoas, tanto a leitura deste artigo, quanto a visão de tais filmes não diz muita coisa. Na verdade, de começo, pra mim também, não dizem mesmo. São recortes, apenas. Servem para encher os espaços do cartão de memória, só. Mas quando penso que não, quando estou longe, no tempo e no espaço, e me bate a saudade, sinto um desejo incontrolável de rever aquelas sensações de relembrar cada pensamento, de sentir o mesmo clima das gravações originais. Sim, sou muito melancólico. Mas sei que tudo tem uma razão de ser assim.

Acho que a maioria das pessoas lida com seu passado de forma muito diferente de mim. Em geral, as fotografias lembram os rostos, mas não conseguem acordar os sentidos. Tenho entre os meus DVDs lembranças boas e ruins, momentos de solidão e de velada alegria. Estão todos lá, esperando pelo play. É tão frustrante perceber que perdi um bom momento, que não registrei um sorriso, um olhar fortuito. Tem vezes que a memória de uma rua me faz sentir tão bem.

Não basta muito para que a gente seja feliz. Ou mesmo para que sejamos infelizes, as coisas não acontecem do jeito que nós queremos só porque na maioria das vezes estamos envolvidos com distrações no caminho. Relembrar, pensar sobre o que se passou é uma maneira de retomar o fio da meada. Não é fácil, é verdade. Tem imagens que até hoje vi poucas vezes, mas, são tantas as boas. Não dá pra abandonar um velho hábito, ainda que nem sempre ele seja compreendido pelas pessoas.

Às vezes me desligo do mundo e das coisas. Penso em coisas que nem mesmo eu sozinho poderia dar conta de lembrar. Mas é incrível que na tela, todas estas sensações voltem com a mesma força de antes. É interessante perceber que naquele momento eu não sou eu, mas outra pessoa, presa num tempo, num momento importante.

Um escritos uma vez havia se perguntado se memoria é dom ou castigo. Pensando bem, acho que é dom. as pessoas é que a transforma em castigo. Não é difícil encontrar bons momentos no meio do dia, basta procurar, todavia, os maus momentos são mais marcantes.

É importante dar um jeito na bagunça, pensar nas coisas de uma maneira nova – lançar-se rumo ao futuro com a mesma vontade de quem nunca experimentou antes coisa boa. Mas todo berço tem seu valor. É no momento de lembrar que a gente vê o quão importante foram as dificuldades, algumas mais que as alegrias.

Eu? Bem, eu sigo com minha estranha mania de filmar coisas, lugares, pessoas. Continuo pensando em frente às câmeras guardando tudo, arquivando no fundo da minha mente e dos meus packs de DVD. Quem sabe um dia meu ócio contemplativo não inspire alguém a tentar também? Quiçá...

@mrsilvioh

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