Nas nuvens


Nuvens negras ao horizonte sempre são prenúncio de algo ruim. Quando estas nuvens estão dentro da gente, então, as coisas tendem a realmente se tornarem piores ainda. A nossa cabeça até pode estar preparada para as situações ruins, mas raramente estão preparadas para a notícia delas. Nuvens negras ao horizonte sempre abalam as estruturas, ainda que toda a construção já esteja preparada para a intempérie.

Se você já foi traído, certamente saberá do que eu estou falando. É algo tão torpe, tão sem sentido que custa muito somar os indícios, calcular as hipóteses e por mais claras que sejam as evidencias, nossa relutância em enxergar os sinais só servem mesmo para aumentar ainda mais o impacto das noticias ruins. Não é o ato em si que causa sofrimento, pois, se fossemos mãos honestos com nossos sentimentos, jamais sofreríamos por causa de decepções que nos são impostas. Gostar e ser honesto para admitir, não ser gostado e ter a resiliência para aceitar são coisas que nem o mais longevo dos seres humanos conseguiu somar à sua vida no decorrer dos seus anos.  Não são os atos que nós sofremos e infligimos àqueles que dizemos amar, que nos faz perder o prestigio como pessoas. As tentativas de ocultar e os medos das consequências, estas sim, é que causam maiores estragos do que quaisquer tormenta inesperada.

Há pessoas que são como céus de outono, ora nubladas, ora límpidas. Outras como se vivessem num verão intenso, trazem sempre consigo promessas, desejos, propostas, sobretudo nos lábios onde deslizam suas línguas e nos atraem. O problema é que, como todo céu,  as pessoas mudam, as prioridades mudam. O não pensar é o que causa com mais força, decepções, sofrimento, choro e mais canções de amor.

No amor não há lógica, assim como também não há segurança. Diz a frase no Twitter que o amor nasce por acaso e dura por um motivo. Sou partidário da ideia de que os motivos nem sempre são relativos a cada sujeito, individualmente, mas da parceria. Grandes amores podem surgir entre pessoas que nem sequer se tocam. O amor – é a verdade – é um sentimento muito amplo. Não dá pra ficar rotulando,  fracionando ou definindo.

Cuide, pois, do seu amor se já o tiver. Não me refiro apenas ao amor carnal, àquele que, invariavelmente a gente procura, quer por necessidades pessoais, quer por imposições sociais. Na verdade, o amor existe à nossa volta. E ele está lá pra ser pego, degustado, pra lambuzar a vida da gente. Todos os dias, todas as horas, gostamos e somos gostados. É verdade que nem sempre com a mesma intensidade que desejamos, mas, ainda assim, é o amor.

Passamos pela vida em meio a perspectivas muito amplas sobre coisas as quais nem sequer tocamos a superfície. Acabamos nos frustrando apenas por não conseguir enxergar que a vida não é feita de metas a curto prazo. Ao contrário, é uma sinfonia que precisa ser composta aos poucos. Um pouquinho a cada dia, de forma a não nos forçar a nada, sempre fluindo, devagar mas insistente, como a chuva que, embora composta de pequenas gotas, ganha pela persistência com que estas costumam cair no solo.

Estar nas nuvens nem sempre é sinônimo de felicidade.  Às vezes exercitamos a auto condescendência para esconder os defeitos da nossa vida, para adiar aquele conserto essencial aos nossos dias. Esquecemos de que a vida é uma responsabilidade pessoalíssima. Não dá pra contratar uma diarista pra por tudo em ordem. Somente se vai conseguir isso a custa de muito esforço, muito suor e, principalmente, muita tolerância. Estar nas nuvens, nesse sentido, nada mais é do que ocultar defeitos, problemas, vícios e pequenas fraquezas, jogando pra debaixo do tapete a sujeira que atravancará o caminho futuro. Acorde e olhe ao seu redor. Até onde você, caro leitor, acredita que irá se continuar no rumo que vem seguindo até agora? E a vida, senhoras e senhores, não para pra consultar informações. Ela simplesmente acontece.

Caia das nuvens e dê conta de que não é possível ter sempre a vida que se pediu a Deus. Essa vida nem sempre é possível, nem sempre é a melhor e nem sequer é a mais adequada. Nem sempre essa queda nos faz o bem que desejaríamos instantaneamente. Mas ela é essencial, é crucial para que se possa perceber que todos os nossos rumos sempre levam ao encontro das consequências de todos os atos, desde os que são feitos em benefício de alguém ou aqueles que contribuem para o prejuízo do irmão.

Estar nas nuvens não é crime. Mais: numa época da vida é essencial. Como escolher a profissão, pensar na família e no casamento, se não se parar um pouco para pensar sobre isso? Complicado. Entretanto, é normal também que estes sonhos sejam, quando necessários, limitados e colocados em outro plano: o plano da ação. Nessa fase é que as coisas tendem a ser mais complexas, os riscos mais iminentes e os resultados nem sempre podem estar à altura daquilo que merecemos.

É preciso definir metas claras, mostrar-se mais suscetível e, acima de tudo, estar abeto ao diálogo. Conversar não implícita apenas a fala, mas todo o conjunto – assim como o silêncio também. Cada fala é associada a uma pausa. Assim é a nossa vida: cada sonho preciso do espaço de uma desilusão, cada vitória é expressão do aprendizado de que foi derrotado. Nuvens negras podem ser prenúncio de vitórias ou de derrotas, a depender apenas do que você aprendeu nas tempestades anteriores. 

Sílvio

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