Vou bem, obrigado...


“Como vai você? Tudo bem?” “Vou bem, muito obrigado”. Quantas vezes já não dissemos isso para as pessoas ao nosso redor? Quantas vezes não nos enganamos com as afirmações que fazemos, só para que as pessoas nos deixem em paz? A gente esquece de como somos inúteis quando não estamos em sintonia com mais ninguém. O homem é nada isolado. Como uma peça na engrenagem do mundo, a gente só funciona quando nos encontramos com outros, nossa  dinâmica só acontece se misturada com alguém. Sozinhos somos como os componentes envidrados num laboratórios, inertes, sós, esperando uma mistura que fará tudo ebulir.

Claro, o amadurecimento não acontece de um dia para o outro. A gente cresce conforme crescem as nossas experiências e nenhuma delas ocorre do dia para o outro. Tudo leva tempo e esse tempo é precioso para cada um.

Não condeno a quem não consegue se relacionar com outras pessoas. Sei como poucos como elas são invasivas, inconvenientes, maldosas e às vezes simplesmente indiferentes ao nosso problema. Me incomodam sobretudo as pessoas invasivas, as que não respeitam o ritmo, as que não conhecem o sinal vermelho adiante.  Apesar dos prejuízos emocionais, ainda sou daqueles que esperam o melhor momento para conhecer na intimidade o meu irmão. Não que conhecer não seja a meta, mas o encontro precisa ser a contento de todos, em uma sintonia que não denote apenas interesse, mas solidariedade, pois de nada podemos usufruir no que está na vida de outrem, entretanto, não podemos passar sem tocar outras vidas, sem estar em meio a um turbilhão de emoções que são nossas, são deles, são de todos, juntos, unívocos, um só corpo.

Conversar com uma mesma pessoa não é conversar com o mesmo conteúdo. As horas passam e a gente agrega mais valor ao nosso todo. Os dias vão e não passa um que não esteja recheado de informações para pegarmos. Às vezes morremos e não chegamos ao fim da linha do que deveríamos aprender. Mas, mesmo assim, mesmo sabendo que o aluno não conseguirá aprender todo o conteúdo, a lição nunca deixa de ser dada. E assim é a vida: uns aprendem pelo riso, muitos pelo choro, mas ninguém aprende sozinho.

Estar acompanhado nem sempre é a melhor das escolhas. Mas permanecer em abandono não pode ser a escolha final. Eu vejo meus amigos indo, se afastando, mas sei que, de alguma forma, os encontrarei mais adiante na minha mesma biografia. Quantas vezes não reencontrei pessoas amadas nas ruas, nos ônibus, repartições públicas, etc? Só pude me considerar feliz porque não as esqueci nem elas de mim. Nossa lição nesse momento é a de que laços de amizade, se forem de verdade, não se rompem com o tempo. E bons amigos, aqueles que a gente admira, precisam passar pela prova da distância. Se forem de leais, certamente que sempre voltarão para nós.

“Como vai você? Tudo bem?” pode ser um cumprimento, um convite ou uma oração. Basta saber de que forma os seus ouvidos recebem o cumprimento. A resposta pouco importa se vier do coração livre e aberto a sua importância. Não é o saber da vida do outro que colabora com a nossa, mas é a forma com que entramos nela como a tocamos em seu cotidiano.

Quando penso sobre isso, me lembro de quantas vezes a gente convive com as pessoas e muitas delas nem sequer se dão o trabalho de pensar a sua vida no encontro com a minha. Nos perdemos, com pouca chance de resgate, no nosso próprio vazio cotidiano. Me surpreendem, entretanto, pessoas que conseguem, ainda que eu nem espere, me fazer calar com um “boa sorte”, mesmo sabendo que a missão a cumprir era em demasia fácil para mim. Isso já aconteceu e aquele desejo repercutiu muito mais que os elogios ao final, pois me mostrou que, mesmo em face da minha imagem de segurança, havia alguém que temia pela minha queda, que esperava estar lá para me amparar caso algo desse errado. Aquele “boa sorte” foi o meu “como vai você”. E só confirmou laços que durarão ainda muito.

Você pode escolher entre calar e falar, ente ser omisso e enfrentar, entre ajudar ou não. Mas não pode se desviar da sua responsabilidade como pessoa,  de estar com seu irmão, ainda que ele mesmo não tenha consciência que precisa dessa presença  para superar dúvidas que, pouco a pouco, minguam a certeza, abrindo portas aos maus pensamentos que o levarão a fraquejar. Entretanto, sempre vale a dica: use de sutileza, não seja invasivo.

Nossas vidas são como um largo campo onde cada um escolhe o que deseja  semear. Entre colheitas de frutos bons e ruins, podemos escolher pessoas para nos ajudar com o trabalho, mas não temos o direito de esperar que elas o façam por nós. A parcimônia em converter em atos o que dizem as palavras, por vezes, é mais importante que a urgência em compor discursos, em mostrar-se erudito. Às vezes nossos irmãos não precisam de muitas palavras. Apenas das palavras certas.

Silvio
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