Para além do coração alado


Quando paro para me debruçar sobre as incoerências de um coração humano, é simplesmente involuntário o desejo de desistir, de esquecer todo traço de humanidade que há em mim e, como muitos o fazem, simplesmente se jogar de corpo e alma num abismo de superficialidade, enganar, mentir, usurpar... tirar do meu irmão o máximo que me satisfaça em detrimento de sua integridade. Como amar a criaturas que, se hora te abraçam, mais tarde te apunhalam? Como acreditar num amor que deveria ser único e, ao mesmo tempo, é distante, passível de muitas variações? Todas essas perguntas fazem tremer as bases de qualquer um. Penso em tomar atitudes que sejam dignas de um inescrupuloso criminoso – mas detenho-me. Paro, respiro e procuro encontrar no fundo daquelas pessoas, ainda que distante e esquecida, a centelha de amor ao próximo que ainda arde, dentro de um coração inconstante, fugidio, alado.
É impossível dizer ao certo o que nos atrai inicialmente em alguém, seja para fins de amizade, amor, sossego ou – por que não? – desassossego. É algo muito pessoal. É como perfume. Você sabia que o perfume varia de acordo com a pele de cada pessoa que o usa? Assim são também as pessoas, assim são os seus corações. Não se pode determinar o que alguém possui que te prende, e te faz cativo de outrem. É fascinante e ao mesmo tempo, desesperador. Todo coração é alado, por isso que me detive nestas reflexões. Quem sabe mais alguém não sofre por aí com as mesmas dúvidas?
Dizíamos que não se pode dizer o que te atrai em alguém, mas é certo, quase impossível de se negar, que todos nós reconhecemos muito bem, frases, cheiros, toques, maneiras de olhar, de falar, que nos fazem prender a atenção, nos tornam expectadores fáceis de suas ações. A isso, a essa estranha atração, é impossível fugir, mas, mesmo que ela exista pra você, se considere feliz se a outra pessoa tiver pelo menos consciência de que assim o é. Pois na maioria dos casos, amamos sem ser amados, nos importamos muito mais do que se importam conosco e, no fim, quase sempre saímos feridos.
Cada pessoa – e isso só um bom psicólogo freudiano – consegue encontrar em qualquer lugar ou pessoa, detalhes, nomes, correlações com aquele ou aquela que o atrai. Comigo acontece com nomes, datas, referências de profissão, jeitos e trejeitos de amigos e, o pior, pensamentos. Pensar em quem se gosta, quando se parte de um coração alado é, muitas das vezes, um castigo, uma tortura maior do que a própria solidão. Tenho pra mim que os corações que não amam são mais felizes do que os que amam, mesmo aqueles que são correspondidos. É um tal de repensar de atitudes, é uma constante lembrança, e todos os sentidos ficam acesos, cada respiração mais e mais dedicada ao ser amado pra, no fim, nem ser, em muitos casos correspondidos. As pedras não amam e sua existência, até virar pó, é constante, segura, firme. Pétreos são os sentimentos que mais solidez denotam, também são pétreas as coisas a que não se mudam. Por que não se aplica isso aos seres humanos também? Entre nós, ao contrário, um coração de pedra é rígido, seco. Mas consegue, por um desses mistérios que a vida possui, ser felizes, do seu jeito, com as suas limitações, com suas maneiras de pensar e de agir. Somos naturais e, ao mesmo tempo, antinaturais.
Corações alados encontram em sua marca os poderes mais fortes, os subterfúgios mais espertos e também as mais poderosas armas para nos capturar, nos prender e depois simplesmente desaparecer de nossos olhos, deixando-nos apenas a lembrança e o medo de não mais voltarem. Não amam, nem desamam. E na vida de pessoas tímidas acabam causando uma confusão emocional tão grande quanto a bomba atômica. Não amar às vezes até pode ser lucrativo, se houvesse, pelo menos, garantia de nãosofrimento.
Quando paro pra pensar nas pessoas e nos seus corações, mesmo os que possuem corações alados, fico imaginando como cada um, do seu jeito, no seu tempo, dedica a sua vida ao próximo. Me preocupo com a saúde do mundo na medida em que a maioria das pessoas que amo nem são, por se dizer, iguais a mim. Lembrando delas, sinto tristeza ao pensar que daqui a dez anos, ou menos, nem sequer nos cumprimentaremos mais e imagino o que, ou quem, vai lhes ocupar o lugar no meu coração.
Acredito sinceramente que os corações alados são o mal do mundo. Mas sei que sem eles, nossas vidas seriam ainda mais estranhas do que já o são. Sinto pena, medo e alegria, esperança quando percebo-me apaixonado pelo gênero humano, pelas suas inconstâncias e desafios e sei, ainda que a minha mente consiga me fazer duvidar e depois me dar certezas, que, ainda que não amado, consigo deixar minha marca naqueles com quem, realmente, me importo. E todos os medos e inseguranças, aos poucos, se dissipam.
Não vale a pena pensar que um amor ou um amigo serão para sempre – eles não são. Erga a sua cabeça e aceite esse fato. E esteja lá quando todos precisarem. Ninguém pode se considerar um bom amigo se não souber estender a mão, mesmo que sangrando, àquele que o feriu anteriormente. Segue uma dica: quando pensar que não mais vai conseguir, imagine a situação oposta. Muitas vezes não temos a coragem de impor ao outro o flagelo que nos impõem. A estes, tenha certeza, você já está acorrentado.
E se a insegurança bater à sua porta – pois ela sempre bate – não se amedronte. Deixe-a entrar, converse com ela e entenda que sem ela, não haveria o que nos tornasse mais proativos. Efetivamente, só sentimos insegurança para com aquilo ou aqueles com quem nos importamos e o medo que vem com esse sentimento, no fim, é substituídopor grande alegria quando confirmamos nosso erro, quando percebemo-nos amados e, dessa forma, vai-se a insegurança até a próxima visita.
Corações alados são dádivas e castigos. Todos os temos e os teremos para nos lembrar de que nem sempre o amor que desejamos está à nossa disposição, para nos fazer acreditar que somos limitados, mas que toda limitação é passageira e que o amor que voa longe hoje, seja fraterno, carnal ou platônico, pode nos surpreender amanhã, ferido e sangrando graças a outro que o atingiu em cheio e o jogou na estrada. Funciona assim com os corações alados. Funciona assim com tudo o que é gênero humano.


Silvio
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