Eu não gosto de você


Há três tipos de pessoas no mundo: aquelas que amam você, as que gostam de você e as que não gostam de você. Do ponto de vista prático, aprendemos pouco com as primeiras, mais com as segundas e temos verdadeiras lições de mundo com as terceiras. Nada contra quem me ama, mas, com o tempo o amor traz o medo de machucar e, por isso, as pessoas passam a não falar certas verdades, a suportar além da conta e, por fim, vão para o time das que apenas gostam, quando, no extremo do incômodo, passam a, de fato, falar mais, entender mais aspectos que sua personalidade possui e que, de alguma forma, não são como elas esperavam e,  consequentemente, acabam verbalizando tudo isso e – aí sim – machucando pra valer.

Eu sempre fui partidário da ideia de que ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Mas as pessoas teriam que, por decência ou respeito, que deixar isso claro. Quando se investe mal o seu dinheiro, o prejuízo é certo, mas é recuperável, desde que se tenha o cuidado de zelar mais  pela saúde financeira. Quando se investe em sentimentos, o bem que se perde raramente é equiparado a outro. Como se compensa o choro? Quantos dias felizes pagam uma traição? Quantos elogios suprimem a dor de uma maledicência traiçoeira?
É preciso atentar para nossas ações. Errar é humano, mas o erro – assim como as condutas – não vem sozinho. Ele traz consequências. Muitas vezes, nós nem sequer estamos prontos para abarcar o número de responsabilidades advindas de um erro momentâneo, de uma brincadeira de mau gosto. Baixar a cabeça e aceitar, nem sempre é também uma atitude que as pessoas estão dispostas a tomar. Assim, estas acabam cada vez mais distantes e inconcludentes em sua própria miséria moral.

Um pensador chegou à conclusão – geográfica, mas etereamente falando, muito verdadeira  – de que a terra esquenta e os homens esfriam. Quanto mais quente a terra, mais frios os homens. Essa frase me marcou porque realmente, transcende o observável e nos faz atentar não apenas para o fato, aquilo que se percebe e que se constata, estampado nas capas de inúmeras revistas científicas: o aquecimento global, mas revela também que nós, seres humanos, homens e mulheres, estamos nos afastando de nós mesmos. A vida em sociedade depende dessa união que, no entanto, está cada vez mais fadada ao esquecimento.

Temo ver chegar o dia em que mesmo olhar nos olhos seja considerado invasão do espaço do outro. Abraçar já o é. A gente só abraça a quem somos muito próximos, ninguém sorri mais ao estranho que passa na rua e mesmo passar em determinadas ruas já é algo de se pensar em fazer ou não. Valoramos nossas qualidades e nos lançamos no mercado social como se fossemos pedaços de carne num açougue. Buscamos pessoas iguais a nós e pré-julgamos a todos que não compactuam das nossas ideias. Somos cada vez mais e cada vez mais intensamente, inimigos de tudo o que nos lembra fraternidade.

Quando Cristo dizia para amarmos ao próximo, não me passa pela cabeça que estes próximos que devem ser amados sejam apenas aqueles com quem temos afinidades, mas a todos que estão, de verdade, dentro do gênero humano, amando e sentindo a necessidade de compartilhar esse amor que só constrói. Quantas vezes não olhamos feio o mendigo que passa na rua? E as maledicências com relação aos homossexuais? E aqueles momentos em que falamos mal de pessoas que nem sequer conhecemos ainda? Todos esses comportamentos acabam ferindo mortalmente este que é um dos valores não da nossa sociedade, mas do cristianismo e de Deus em essência. Nunca acordamos para o erro até que já tenhamos perdido um bem espiritual maior, coisas que não se compensam, não têm outro correspondente senão elas mesmas, algo que depende apenas do simples existir em si mesmo para que se possa constituir, verdadeiramente, em uma virtude.

Amigos existem aos montes. Inimigos também. Podemos aprender com todos eles, desde que estejamos cientes de que nosso papel como seres humanos é compreender uma dinâmica da qual a justiça, por mais utópica que possa parecer, possa ser feita. A nossa consciência é o nosso maior benchmark e é ela que precisa ser acionada cada vez que temos que escolher entre amigos e parceiros, entre aniquilar o inimigo ou mudar a sua opinião, dar a outra face.

Não gostar é fácil, difícil mesmo é explicar porque não se gosta. Mais difícil ainda é ter a nobreza de coração para reconhecer que pouco se esforçou para gostar. Finalizando o post, gostaria de dizer que, a exemplo de algumas pessoas que conheço, é triste perceber que pouca coisa, um cargo, uma certa posição social, um pouco mais de popularidade, faz com que as pessoas julguem-se para além dos demais. Vale para eles o conselho de outro ditado popular: “não use seus amigos como degraus da sua subida, pois poderás encontrá-los durante a sua queda”.

Silvio
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