Nasce, Morre, Nasce


Algumas pessoas são afortunadas porque elas não sentem nada no nosso mundo, por que sentir é algo cada vez mais criminoso atualmente.  Pessoas como estas levam suas vidas sem pensar, sem sofrer, sem nada acrescentar à sua  experiência emocional. Infelizmente, caro leitor, eu não sou uma dessas pessoas. Eu queria muito, de verdade sê-lo. Isto é um fato  triste, mas, conforme me compete neste novo abrir de portas da minha vida, é um sentimento verdadeiro, não apenas verdadeiro, um sentimento de fuga.
A gente nasce. E quando a gente nasce, nascem conosco todas as nossas expectativas. Quando somos crianças, nossos pensamentos, por mais instintivos que sejam, sempre estão orientadas ao magnetismo mágico, etéreo do nosso primeiro contato com o mundo, quando não somos quase nada senão alguma esperança e muita fragilidade. Nesse período, dependemos exclusivamente dos outros para sobreviver. Como é triste, leitor, quando rompemos essa barreira, e passamos a ver a necessidade de seguir sob a égide da nossa própria experiência.
Quem nunca se pegou chorando saudades – ainda que de forma simbólica – dos dias da sua infância? Quando a gente cresce, junto com o avermelhar profundo do mundo, crescem também os sentimentos de rejeição, o medo. O mundo nos ensina no jogo social e cada vez mais a competitividade nos arrasta para um rumo em que, invariavelmente, só nos resta apenas lamentar não estar naquele tempo em que, nos braços dos nossos pais, amigos, irmãos, éramos seguros e salvos.
Mas as coisas não acabam na nossa fase adulta. Crescemos, mas a nossa essência não muda jamais. Estamos sempre buscando o que fomos, para que haja argumentos suficientes para delimitar o que seremos sem nunca nos desligar do nosso DNA emocional. Morremos para a infância, mas ela não desaparece em nós. Tudo o que assimilamos na infância reaparece em forma de desejos, medos e alegrias na fase adulta. Crescer ignorando o que a criança em você lhe diz, prezado amigo, é, positivamente, sofrer em dobro.
Crescer é um horror quando sentimos que não estamos preparados para o mundo ainda. Mas é necessário. A nossa criança precisa ser o nosso guia, o nosso coração precisa ser sincero aos seus pedidos e nunca – imperativamente – temer suas escolhas.
Por isso, mesmo sentindo como é difícil, minha criança ainda quer apostar em mim. Sinto que não a ouvi por muito tempo e quando não se faz isso, é certo que a caminhada torna-se em vão e temos que retornar ao ponto em que começamos para seguir adiante.
Achei legal escrever sobre isso, porque, hoje,  percebo que em muitos aspectos, eu continuo sempre retornando ao ponto de onde parti, insistindo nos mesmos valores, sofrendo os mesmos perigos, chorando as mesmas dores que antes. Tudo porque ignorei quando meu coração – minha criança interior – me pediu temperança, paciência, criticidade. Sabem, ser alguém que sente, num mundo de sentimentos proibidos, acaba custando caro. Primeiro, porque se você consegue matar um sentimento, ele renascerá mais forte: a sua criança interior não morre; segundo, porque destes mesmos sentimentos podem advir consequências maravilhosas ou terríveis, de acordo com a forma que escolhemos para lidar com eles. O conflito até demora, mas não deixa de vir.
Hoje eu sigo meu rumo. Confesso que entrei em situações as quais eu tinha certeza que jamais iria entrar. Sabem o que eu descobri? Que maltratei demais o meu próprio espírito, neguei-lhe necessidades viscerais e hoje busco encontrar em outras pessoas, objetos morais que eu deveria ter mantido intactos no meu próprio eu. A gente morre dessa forma também. Mas essa morte só perdura enquanto não vivenciamos conflitos, ou enquanto não reservamos um tempo para compreender que, sem quaisquer pressões, nosso espirito enfraquece.
Nasce, morre, nasce. Somente assim a nossa caminhada pela vida se torna essencialmente rica. Somente quando delegamos ao nosso espírito a possibilidade da vivência, em circunstancias idênticas, porém em momentos distintos, de situações as quais não conseguimos lidar a priori. Nosso corpo é regido pela nossa mente. Cuidemos, pois, dela de maneira verdadeiramente honesta.
Revire o baú de suas emoções e prepare seu coração para aquelas cujo momento de encontro há muito foi adiado. Eu fiz isso e não me arrependi. Pior seria ser pego de surpresa pela vida sem que dela eu tivesse colhido todos os subsídios que eu precisava para torna-la significativa.

Sílvio
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