A Chave da Alma




Olhos turvos,  mãos nervosas e a gente entra na casa de um homem. E lá dentro estão seus tesouros, seus valores. Todo homem em sua ilha familiar transborda em si mesmo e se abre em orgulho quando da construção bem feita, ou sofre calado as máculas dos seus erros. Delineiam-se traços marcantes, e logo aflora confiança e respeito.  Entra-se na casa, deflora-se um mundo.

Ouvir e saber ouvir nesse momento é a chave de uma completa experiência com aquele a quem se escolhe gostar. Sim, pois, mesmo que não queiramos reconhecer, gostar é um ato de escolha. Abrindo-se os ouvidos e depois o coração, a gente escolhe as pessoas que gostamos. Quando fazemos o processo de forma errada, normalmente, acabamos gostando das pessoas erradas. Mas toda mágoa e todo o medo sucumbe diante da possibilidade da nova experiência, e cada momento se faz único, se faz eterno no descortinar de uma nova vida que se abre diante dos nossos olhos.

Mentes abertas, adentramos na casa do homem, em seu castelo, em tudo o que ele acredita, mesmo que as crendices que ele construiu estejam além do que  se observa ao nosso redor, ainda que esta ilha seja demasiado distante da realidade que abraçamos cotidianamente. As portas do mundo do homem estão abertas ao sossego que encontra naquelas pessoas que escolheu pra seguir adiante na vida.

Entramos, todos, em casas distintas. Uns por necessidade, outros por conveniência, poucos por valores espirituais. Escolhas abrem portas, mas como entramos, muitas vezes, pode ser uma imposição, algo que chamamos de sina, mas que não é senão a manifestação incontrolável do valor de uma escolha. Há muitos homens e há muitas casas.

Desespero, alegrias, tudo que a casa do homem mostra, como num santuário, permanece lá. Medos, anseios, infelicidades e opostos a estes sentimentos. Tudo, tudo mesmo, está dentro, guardado, velado pelos olhos do homem que passeiam sobre cada parede, a fim de certificar-se da solidez dos seus domínios. Ao fim, dorme embalado pela segurança que criou, ainda que cercado por um mundo diante do qual será mera partícula.

Entramos nas casas dos homens, procuramos identidade lá dentro. Esperamos aceitação até que possamos, em fim, retornar à nossa casa. Não há casa que não seja lar provisório dos nossos bem-quereres e nada é como a aceitação, o apadrinhato dos cuidados que se obtém ao ser aceito num ninho que não é o seu, mas que lhe remete a ele constantemente. A casa do homem, por ser sua morada, traz consigo muito da personalidade do homem, escondidas em cada canto, uma memória, um olhar, e todos os seus valores são despertos.

Mudamos o cenário, mudamos a conversa, mas o élan que se estende sobre nossas cabeças nos faz sentir abertos também. Por fim, o homem adentra na nossa casa. Somos fisgados: é amizade.

Silvio.
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