Tempo e distância



O meu coração é alado. O seu também. Engraçado, porque quando falamos de fenômenos da cabeça, das emoções, geralmente nos referimos ao coração. Essa tradição vem da Grécia antiga, quando as pessoas não tinham o cinzento conhecimento do corpo e a dor que sentiam era, em geral, apontada ao coração quando esta dor era causada por uma ansiedade do amor, do medo, da ansiedade, etc. Nosso coração é alado e engana o nosso pensamento, neste caso, eu até aceito que os gregos estavam certos. Nossas emoções sempre superam a nossa medicina.

Quando decidi escrever este post, decidi fazê-lo para lembrar que os dois maiores remédios às nossas dores emocionais são sempre tempo e distancia. O tempo, por mais que algumas pessoas queiram afirmar o contrário, é justo para todos. Passa igual, mas os efeitos em cada um é que variam, de acordo com a força e a vontade dos indivíduos. O tempo cura feridas, agrava loucuras, afasta, aproxima, é, por fim, uma faca de dois gumes. Sofremos e o tempo vem, se encarrega de ignorar as forças desse sofrimento, com o seu passar, essas dores que nos preocupavam passam a ficar no térreo de nossa subconsciência. Lá elas não aparecem com tanta frequência, entretanto, não desaparecem de tudo.

Tempo é a coisa mais preciosa que temos, entretanto, é a que mais desperdiçamos. Pense bem: podemos comprar praticamente  qualquer coisa. Inclusive dinheiro. Entretanto, não há dinheiro neste mundo que nos restitua um minuto que perdemos em qualquer coisa que não seja uma das duas principais funções do tempo: o conhecimento e a cura. Pensando por este viés, o tempo é nosso amigo, nosso inimigo, mas é alguém que, invariavelmente, vai bater à nossa porta. Não esqueçamos que a memória não resiste ao tempo, nesse caso, nossas dores de agora, em poucos anos estarão esquecidas, mas o tempo que gastamos em esquecê-la, este sim, não retorna mais.

Associado ao tempo, mas não melhor que este, a distância é a segunda maior ambiguidade com que vivemos, por isso mesmo precisamos estabelecer que relações teremos com ela. Distancia nem sempre é sinônimo de afastamento. Este é o primeiro ponto. O mundo é redondo, e, em qualquer hipótese, logo a distância regride, não há o máximo em termos de distância no planeta terra e quando nos afastamos demais, acabamos encarando o mesmo problema de novo.

O bom é que tempo e distância juntos, nos propiciam conhecimento, proteção, apoio. Mesmo quando estamos a sós, a distância possibilita uma análise da situação pelo lado de fora, ao passo em que o tempo nos ajuda a colocar uma nova perspectiva sobre o problema. Muitas vezes, uma situação independe de nossa distância física para se afastar da gente. Você não precisa sair da cidade para esquecer daquilo que te faz mal, que te é prejudicial.

Você pode escolher entre os desafios que terá de enfrentar durante o seu dia. Não significa que você está fugindo dos problemas, mas que você admite que há problemas cuja sua capacidade e lucidez ainda não alcançaram a proporção ideal de temperança para enxergar a saída. Tempo e distância podem lhe proporcionar esta temperança. Nosso sofrimento só é agravado quando nos encontramos face a face com um problema para o qual não estamos ainda preparados para enfrentar.

Não tenho medo de desligar o celular quando é necessário pensar. Não acesso emais, muito menos as redes sociais que participo cujas pessoas que são o alvo das minhas emoções fazem parte, se eu não estiver emocionalmente equilibrado e preparado para sua tristeza, indiferença, escolhas, exclusões... qualquer coisa que elas fazem que vão de encontro com os meus valores, porque as pessoas erram, e é nossa culpa ressaltar os seus erros mais do que suas qualidades.

Esqueço do mundo e cuido só do essencial. Se você não cuida de si mesmo, certamente não cuidará de mais ninguém. Já diz o dito popular que o primeiro amor é o amor próprio. Seja responsável sempre que quiser, mas irresponsável quando for necessário. Não adianta entrar em conflito com alguém cuja cabeça não está preparada para entender o seu momento.

Tempo e distancia precisam se alinhar com o que há de realmente importante para nós. E só descobrimos isso quando paramos para pensar no que está se passando ao nosso redor. Sinta sua pele, sua respiração, seu calor... tudo dá indícios de suas necessidades e quando identificar alguma, não se assuste, apenas pare e cuide de si mesmo. Escolha sempre para você em primeiro lugar. As pessoas te valorizarão à medida em que você se valorizar. Em cada um de nós há este potencial e basta que abramos espaço à nos mesmos, fujamos da bagunça do nosso cotidiano e, olhando tudo de fora, percebamos que a felicidade é um caminho, não um lugar, mas uma escolha, também.  

Silvio
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