As pessoas e os valores que elas têm



Quando conhecemos as pessoas, tendemos a ver nelas características que agradam a nós mesmos. É uma forma de encontrar um elo sinérgico entre os indivíduos e a gente. Este elo às vezes se confirma, outras vezes não. É um fato. Assim como levamos as coisas para este rumo, tendemos a pensar também as pessoas em níveis qualitativos. Pessoas boas têm muito a ver com a gente, pessoas más, não. É tão simples! Mas é, ao mesmo tempo, uma prova da nossa pouca iniciativa em apurarmos a nossa sensibilidade em relação às pessoas.  

Sabem, ultimamente vivo uma fase que tem me permitido viajar bastante. Como em toda viagem, tenho conhecido pessoas, muitas pessoas. E, mesmo com a minha cabeça bitolada nessa de seguir selecionando as pessoas segundo os meus valores refletindo nelas, decidi conhece-las pelo que elas gostam, pelos valores que têm, pelo que é realmente importante para elas.

Se você, leitor, pensar em fazer o mesmo, advirto que este é um processo gradativo, cansativo e que exige muito mais da capacidade de acreditar, de observar, do que do nosso suposto senso de justiça, pois as pessoas não revelam seus reais valores a menos que sejam impelidos por um elo de confiança a isto. Esta confiança somente pode ser explicada por meio do esforço individual de ambos os lados, um em se fazer próximo, outro sem e aproximar. Quando – e só – isto acontece, se pode enxergar o que as pessoas escondem sob a sua crosta de bom senso.

E sabem o que descobri? Descobri que as pessoas as quais eu mais tinha afinidade, nem sempre encontravam nas suas vidas os ideais com os quais eu compactuava. Ao mesmo tempo em que percebi naqueles que se mostravam além da minha capacidade de tolerância, valores como família, amigos, respeito, espaço próprio, entre outros, os quais em todas as circunstancias eu prego. Mesmo entre aqueles amigos que eu acreditava não haver divergências de pensamento se mostraram evidentes aspectos estranhos à minha ótica, pelo menos do ponto de vista dos valores que propagávamos no nosso círculo.

No conjunto,  descobri que as pessoas não são puramente boas ou más. Elas têm é personalidades diferentes, desejam coisas que são próximas das que nós desejamos, mas trabalham, na maioria das vezes, em prol de coisas que o mundo impõe a elas não deixando que valores realmente importantes aflorem, o que não impede que no seio de sua intimidade estes valores sejam cultivados. Em geral, as pessoas são uma questão de investimento. Investimos emoções demais naqueles que são parecidos conosco que, no fim, nos vemos em meio a uma selva de estranhos. E o pior: atraindo mais e mais estranhos a este mundo.

Investir sentimentos, assim como identificar valores, deveria ser uma coisa amplamente aberta, sem preconceitos nem medos. Devíamos tocar nesses assuntos com nossos amigos, mães, pais, com nossos filhos, em fim, com qualquer pessoa com quem mantemos contato mais intimamente. A nossa mente e a nossa visão é turva com frequência, graças aqueles valores que a nossa sociedade nos exige. Recentemente apenas descobrimos os males relacionados às emoções e a depressão, o maior deles, tem se manifestado de maneiras das mais diversas, não mais sob a clássica imagem do triste depressivo.

Acho que as pessoas tendem a adoecer mais das emoções porque em geral, esquecem que elas são mistura, heterogeneidade. O mundo não tem apenas uma cara, mas muitas, tantas quantas deem conta da felicidade de todos. Não existe a pessoa certa, antes, existem as pessoas – e só.

Acho que constatar esse tipo de coisa não serve pra eu, muito menos ao leitor, eliminar de vez os sentimentos de antipatia por algumas pessoas. Mas serve para impedirmos de passar com o nosso trator emocional sobre os sentimentos delas. Magoar ainda é o maior mal que uma pessoa pode oferecer a outra, e há formas de magoar que não agridem apenas o ego, mas também o espírito – e essas formas são imensamente danosas, pois na maioria das vezes são irreversíveis.

Descobrir as pessoas pelo que elas são não é um favor a elas, tampouco uma obrigação, mas antes, é um remédio aos males que impomos a nós mesmos e ao nosso próximo, afinal, é melhor ser solitário a ser perseguido por muitos inimigos.


Silvio
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