Saindo do eixo



Este deveria ser o post perfeito. Ele deveria tratar de uma descoberta feliz, que levaria as pessoas a um encontro feliz com elas mesmas. Mas, como tudo no mundo – e neste blog não poderia ser diferente, nem tudo são boas idéias, nem as descobertas estão sempre num patamar de utilidade pública. Este post deveria ser sobre generalidades, mas acaba que é um post sobre mim. Se você, leitor,  acha que não deve ler, tudo bem. Siga adiante até o próximo post.

Sabe quando tudo está correndo bem, quando as coisas parecem que estão saindo exatamente conforme você pensava que elas deveriam sair, mas na verdade, lá dentro de você mesmo, algo ainda está incompleto, que não está funcionando bem ou ainda, não corresponde ao que você precisa naquele momento? Pois é, mesmo quando estamos com a mente completamente aberta a novas possibilidades, damos conta às vezes, de que estar numa situação de expansão de idéias, nem sempre significa estarmos numa relação de igualdade com o que realmente precisamos. Às vezes, nossa própria bagagem já é, por si, só, capaz de satisfazer as nossas necessidades individuais, as nossas realizações podem sim nos dar o aspecto de equilíbrio que buscamos no nosso dia-dia.

Muitas vezes nos preocupamos tanto em ver algo novo para além da janela, que passamos a ser estranhos na nossa própria casa, como se uma pessoa qualquer a estivesse mobiliando e dando o seu perfil à forma que o nosso mundo terá. Isso é uma experiência frustrante porque muitas vezes nos perdemos dentro do enorme universo de experiências que acumulamos com o passar dos anos, com os amigos e conosco mesmo, deixando de lado o usufruto prático destas experiências. Às vezes, só quando não mais podemos nos desvencilhar da teia de estabilidade que armamos para nós mesmos é que percebemos ser desperdiçada a força interior que nos habilita a ser gente.

Se supervalorizamos as experiências já estabelecidas pelo senso comum, obviamente estaremos anulando a nossa originalidade. Entretanto, mesmo os grandes exploradores precisam buscar em si o sentido do que se refere a sua busca, do contrário, seguir um rumo só por seguir evidencia uma carência muito grande de referenciais, não um referencial sólido no qual se pode realmente confiar. Hoje, que as pessoas têm amplo acesso aos inúmeros meios de transporte, os mecanismos de informação chegaram às raias do tempo real, esquecemos de que não somos definidos pelo mundo, mas estamos a cada dia mais próximos da compreensão de que podemos dar a ele o nosso traço também. A vida, mesmo quando muito colorida, pode ter também nuances de cinza no seu espectro.

Esquecer do que se aprendeu pode ser um caminho a um novo aprendizado. O caminho construído leva aos lugares já conhecidos, dizia o ditado popular. Pode ser bom abandonar a rotina de sempre, mas não para tornar-se escravo da rotina do inusitado, que é preenchida somente de coisas das quais você prescinde. Ninguém precisa ir ao Nepal para encontrar a necessária sabedoria para entender a vida, tampouco só os monges do Tibete a tem. O bom da sabedoria é que ela é etérea, pode estar em qualquer lugar onde haja uma abertura ao seu espaço.

 No plano negativo, uma palavra colocada dentro de um contexto estranho pode, quase instantaneamente, desvelar-se numa série de possibilidades, o contrário também é verdadeiro. Um momento de reflexão séria e verdadeira, ainda que ocorra no escritório, no carro ou no banheiro da sua casa, pode revelar verdades que o cotidiano absorve, camufla. Os cuidados com estas verdades é que deverão ser corretamente assimilados. Nosso senso crítico precisa estar perfeitamente sintonizado com o que nos cabe e nos sobra no espírito, mas, como conhecer estes limites se nos preocupamos mais em ter do que em selecionar as nossas experiências? No menor dos desgostos, um vexame pode ser a conseqüência imediata de uma relação de estranheza com você mesmo.

Somos entes complexos. Quem adiciona mais sal à comida que já está salgada? Ninguém. Primeiro apura-se o que já existe e só então se adianta o processo de temperar. Do mesmo jeito é com a nossa vida. Às vezes a temperamos demais com os outros, amamos pessoas detestáveis, odiamos os verdadeiros amigos e quando vamos ver, ver qualquer DVD repetido é melhor do que receber um telefonema sábado à noite. Procurar novas experiências nem sempre significa estar em sintonia com o espaço que há entre nós e o que realmente procuramos. Que triste seria saber disso quando já não dispomos de armas para lutar positivamente contra esse fenômeno!

Descobri que quando na vida parece estar correndo tudo bem, mas na verdade algo ainda pode ser completado, sair dos eixos às vezes é a melhor solução – pelo menos para pensar-se no que se espera das nossas experiências de então. Por sair do eixo, leia-se sair de cena, procurar isolamento, escolher novos caminhos e, desta forma, encontrar o que é certo e o que é errado, para que se possa em fim, construir uma identidade verdadeiramente dentro do que se espera de nós mesmos. Do contrário, o constante encher de tudo a nossa cabeça apenas nos turva o espírito das verdadeiras experiências que formam a nossa essência, deixando-nos cada vez mais nítida a sensação de sermos apenas passageiros em nós mesmos.  

Silvio
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